"Havia uma profusão de pessoas no vestíbulo do cinema. Me concentrei em entrar na fila e comprar o ingresso, observando, no entanto, que as pessoas estariam ali, provavelmente, para assistirem ao Fúria de Titãs ou ao Robin Hood (de Ridley Scott); mas, logo na vitrine, um aviso de 'Esgotado ingressos' para Fúria... em 3D aumentou significamente as minhas expectativas (de que o filme fosse capaz de me agradar, é claro!)...
Bem, o ato da compra de um ingresso de cinema está intimamente relacionado ao prazer que esta pessoa que compra -- investe energia (por mais grosseira que seja, como o dinheiro o é) -- pode, ou crê, sentir durante a projeção e sobretudo ao final dela. A minha cotação de alegria em assistir filmes estava favorável para um novo sucesso: 3 filmes, em sequência, intercalados, evidentemente por tempos distintos, ótimos e agradavelmente justificáveis para o dito assim programa: Chico Xavier, As Melhores Coisas do Mundo e Harry Potter e o Enigma do Príncipe foram eles (poderiam ser 4, se considerássemos também Avatar... é: 4 bem sucedidas investidas ao cinema!) E, sem pesar em meus ombros qualquer temor ou ansiedade incontrolável por conta do filme que se iniciaria dentro de 15 minutos, subi calmamente a escada que levava à sala, observando distraidamente um grupo descendo as escadas logo ao lado, sorrindo e gozando um trio de pessoas à minha frente: 'É lá embaixo', dizia um deles sorrindo de orelha a orelha enquanto o outro à minha frente indagava 'O filme é na sala de baixo?...', 'É, trouxa (risos)'. Ao querermos, de verdade, pela simples observação e análise despretensiosa, podemos encontrar maravilhas no mundo das relações humanas... Antes de entrar, virei o rosto para um casal ao lado: 'Você quer dizer a minha bolsa; a minha bolsinha?', a mulher questionava de maneira infantil e paciente enquanto o cara de óculos vasculhava a sua bolsa de modo impetuoso, mas moderado. Não posso deixar de dizer que me senti com o peito opresso ao encarar a sala, mergulhada em uma típica e profunda penumbra, parcialmente cheia (ou mais ou menos vazia?...); tudo o que me interessava, agora, então, seria encontrar o 'meu lugar' -- ele fica mais ou menos duas filas antes da sessão final e ao lado direito do projetor... Estava lá, três lugares para escolher; apesar de sentar-me de pronto no primeiro lugar ao lado da escadaria, percebi que a minha visão não estava realmente alinhada, centralizada... E, por isso, senti realmente uma grande paz quando pulei para o outra assento à minha direita (que, de um modo ou outro, impediria algum casal de se sentar juntos... Bem, algumas vontades humanas inibiem ou destróem as vontades de outrem...). Mas é fato que, desde que entrei, um grupo de jovens indisciplinados (risos pelo me rigor...) se mostraram bastante à vontade com o público, para consigo mesmos, enfim... na sala de casa. A alegria se revelava brilhante para eles, e o entusiasmo não era propriamente pelo filme, mas sim por estarem em um cinema. Uau! Como podem?... Como querem?... Como suportam agir assim?... Bem, eu escrevi que o meu espírito estava preparado para aquele tipo de coisa: Assistindo de relance a uma entrevista com Sam Worthington (ao qual ele falava com gestos rápidos e olhos esbugalhados de adrenalina, como se estivesse alterado pelo efeito de alguma fileira de pó branco), sobre o filme, ele comentou, erguendo os ombros num sutil meneio de cabeça sobre aquele ser um 'popcorn-movie' (filme-pipoca) e que as pessoas deveriam se sentir livres e à vontade para assoviar para a Medusa e mandar ver as suas pipocas quando Hades aparecesse em cena (me pareceu, imediatamente, que ele sabia sobre o que falava, e que era, afinal, digno de confiança)... Hum, este comentário, acompanhado por um semblante risonho e irresponsável do ator, poderia ter me convencido a baixar gratuitamente o filme e conferir se, de fato, ele seria digno de ser levado como um entretenimento no mínimo eficiente, feito por pessoas competentes... E eu, antes de colocar a minha bota-de-sete-léguas, até cogitei ir em outro dia... Mas... Agora eu estava sendo audiência passiva daqueles moleques (meninos e meninas de voz esganiçada, de timbre pouco refinado). E as pessoas continuavam a chegar; comiam pipoca e olhavam umas para as outras, movendo os lábios, sorrindo ou gesticulando imperceptivelmente o palato...
Formou-se dois grupos distintos destes escrachados comentaristas, sendo que o que se instalou à esquerda, na última fila, acredito eu, era formado exclusivamente por garotas... Engraçado como a esbórnia pode ser contagiosa e flexível para aqueles que a seguem... A cada comentário das meninas, eu meditava sobre o fato de elas não terem realmente nada na cabeça, nenhuma motivação efetivamente progressista...
Sozinho na escuridão que se adensava pouco a pouco, eu convenientemente pus o meu cérebro para se distrair com o jogo da bola elástica, no meu celular (se quebrasse o recorde de 572 pontos, as iniciais seriam TIT...). Por três vezes, pessoas pediram licensa para passar, me forçando a perder as vidas... Mas longe de me chatear com isso, já ia me distraindo com a sucessão de eventos que aqui e ali se realizavam... Por mais surpreendente que pareça, uma mulher lá embaixo apareceu com uma máquina fotográfica; 'A foto!...', comentário. Um flashe potente e esverdeado. 'Vinte reais.', eu não pude deixar de começar a achar graça no que aqueles idiotas indômitos diziam... Talvez eles não fossem tão idiotas como se esforçavam para parecer ser e somente estivessem possuídos por uma alegria imensa proporcionada pelo véu da escuridão que os ocultava parcialmente da multidão que se formava; além do mais, eram comentários pertinentes ao caso -- terrivelmente oportunistas, mas encaixados em uma rede lógica de eventos. Quando um sujeito magro me perguntou, com voz mansa, se aquele lugar da direita estava reservado -- 'Não, não' --, eu imaginei como seria a sua reação ao dizer que sim; seu rosto se crisparia de frustração?... E como eu me sentiria se ninguém se sentasse ali depois?, será que ele iria vir tirar satisfação comigo depois?... Mas o fato é que eu perdi todas as minhas vidas no joguinho, e não me interessava mais jogar... Faltava pouco menos de cinco minutos, e eu me pus a ouvir atentamente a galera da bagunça:
'Ô João!... Sobe aí, Maria!', não havia ninguém para subir; ' Hiic, hiiiiiiic, uaaaAAUUuu!...', risadinhas e gracinhas etc; as meninas falavam sobre vizinhas e antipatias...
Naquele momento, em que o primeiro comercial começou a passar na grande tela branca que se iluminou repentinamente, eu já estava em um estado de profunda tolerância para com o ambiente e para com todas as pessoas da sala...
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário