quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Fúria dos Titãs - propagandas e estranha diversão...

"É de prache, nas salas de cinema, que, antes do início de cada filme em questão, patrocinadores do lugar e interessados em divulgar os seus produtos e/ou serviços tenham a benece de ter os seus comerciais passados na grande tela à frente dos nossos olhos comprimidos na escuridão total... Certa vez, eu comentei com um camarada, que o que pagamos, hoje (pelo menos), ao assistirmos um filme no cinema, não é a oportunidade pura e simples de nos inteirarmos da realidade daquele filme que nos interessa, mas sim a possibilidade de podermos ser envolvidos em um ambiente propício para a degustação daquela experiência audiovisual: o clima, a qualidade da imagem e do som, a pipoca (cara e de perfume apetitoso!...), a força da energia humana contida e concentrada em um único foco -- um objetivo ponto de vista, que se une a tantos outros em harmonia suave ou desarmonia momentânea... E, com o passar do tempo, quanto mais ganhava experiência de vida, tanto mais me importava este detalhe, que talvez possa passar despercebidamente para 80% das pessoas que frequentam as salas de cinema. E o fato que corrobora este ânimo imanente em nosso espírito ao sentarmo-nos na poltrona acolchoada no breu, é que até mesmo comerciais medíocres e/ou mesmo estúpidos ganham uma força de atração estranha quando assistidos no cinema. É óbvio que podemos, sinceramente (e esta é a regra geral), desprezar este evento que antecipa a entrada dos trailers, mas, se abrirmos o nosso coração e a nossa mente para aqueles esforços publicitários que se sucedem aos nossos olhos entediados, podemos mesmo nos divertir com toda aquela bobagem (que por vezes se nos apresenta, fortuitamente...).
Mas isto é uma divagação... Para àqueles que querem faturar com os seus projetos e empreendimentos, será sempre bom divulgá-los, não é certo? E nós, que não compramos as idéias práticas deles, tampouco poderíamos mesmo deplorar estas suas tentativas de cativar...
Mas não precisamos, necessariamente, servir de observadores passivos e ingênuos destes feitos...!
E em todos os 4 filmes excelentes, que eu vi neste período de seis meses nos cinemas da vida social, sempre me aparece um em que o narrador nos apresenta um modelo típico de família: Casal... Sogrão, Irmão etc. -- Como este comercial é tolo e abusa da capacidade do indivíduo em se projetar para fora dos modelos já batidos pelos tempos modernos...!
E, já um tanto distraído pela luminosidade intensa, e também pelas vozes que vinham com força de irresponsável malícia, cedi a minha cabeça ao poder da gravidade, que me fez recostá-la na poltrona... Apareceu na tela uma senhora muito antipática... a Sogra. 'Sogra é uma desgraça...!', o comentário em voz alta de uma jovem, que parecia não ter se esforçado muito para chegar a esta constatação particular, foi tão repentino e eficiente como uma boa piada também o é. Analisei que, todavia, o seu pensamento era muito ingrato, pois, se ela refletisse por um único segundo, perceberia que era graças à esta 'Desgraça' que o seu namorado existia para ela (caso este em que ela tivesse um...). E, para consolar o Jovem que se casava, uma loira extremamente sensual e estereotipada surgia na tela para que nós, marmanjos potencialmente arrastados para um inevitável enlace matrimonial, nos consolácemos com a proximidade da luxúria: a Cunhada (alguém que parecia programada para o sexo). É claro que, neste dia, eu ouvi muitos assovios e palavras de entusiasmo para com a mulher sorridente, que não se acanhava em oferecer-se para nós -- a platéia.
Depois foi a vez de uma propaganda muito estranha, que me fez sorrir muito por dentro, gargalhar com a minha imaginação: O rosto de uma mulher está em um close fechado, que se afasta gradualmente e revela que ela está (vejam-só!) em um cinema, vestindo roupas leves e brancas, ocupando 'três poltronas'  -- folgada ela, não?... Não obstante feliz para si mesma e insensível para com as outras pessoas da sala, que, ao que parecia, não gozavam do mesmo privilégio de poderem sentar em posição de meditação (flor-de-lótus) e curtir um filme no cinema...! Mas a verdade é que a sala deste cinema em questão estava com pouquíssimas pessoas; e, seja lá qual filme se projetava para os espectadores, ele só entusiasmava mesmo a esta mulher estranhamente satisfeita. E, na hora em que o locutor explicava o porquê daquela senhora estar ali -- o seu significado quase metafórico -- foi para mim impossível não imaginá-la ali por perto, sentada com algum conhecido que a reconheria na tela; com o semblante modificado, ligeiramente contraído por alguma espécie de vergonha impossível de disfarçar, ela talvez fizesse pouco caso daquele trabalho -- isto é profissionalismo!. Eu encarei com irreverência esta visão, e ela logo desapareceu com a entrada de uma outra propaganda muito chata e cansativa de assistir. Pensei, logo que começou aquela sucessão de acordes monótonos e melodias simplistas, que nenhum publicitário deveria se dignar a propalar os bens de sua terra com alguma canção nacionalista... Isto não dá certo; não cativa ninguém, hoje em dia...
E, quando esta parte do ritual é superada, existe um instante de nada, que parece que vai nos testar novamente a paciência... Mas logo vêm os trailers, e então o filme começa...

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